terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Documentário: Os voos na encruzilhada

A importância de Natal (RN) para o mundo nasceu e morreu com os tanques de combustíveis de avião. Entre as décadas de 1920 e 1940, a localização geográfica fazia da cidade, ponto obrigatório para quem precisava cruzar o Oceano Atlântico. Aí veio a tecnóloga, os aviões ganharam autonomia de voo e a cidade deixou de ser o ponto obrigatório de chegada e partida de pessoas e mercadorias. Esta é a história contada no documentário “Natal encruzilhada do mundo”, realizado pela Fundação Rampa, com patrocínio captado através da lei de incentivos fiscais Djalma Maranhão. “Os depoimentos coletados revelam detalhes dos bastidores, que não foram publicados em nenhum livro de história”, disse o diretor do documentário e desenhista industrial, Frederico Nicolau. O documentário está em fase de edição e deverá ser lançado em abril de 2011. Segundo Frederico, caso alguém deseje deixar o seu testemunho histórico no vídeo, ainda há tempo. Para ele, a parte mais importante do documentário são os depoimentos.
Embora seja contada a história da aviação civil e militar, entre as décadas citadas, a maior parte de depoimentos é de pessoas que interagiram com os americanos, durante a Segunda Guerra Mundial. “Estamos entrevistando pessoas que hoje têm 80, 90 anos. Eles foram os adolescentes daquele período. Os mais velhos, morreram”, disse o diretor. Foram esses adolescentes que durante a Segunda Guerra, trabalharam nas bases militares, descascando batatas, lavando os pratos e as roupas dos soldados americanos. Eles estiveram, de fato, nos bastidores da guerra, uma posição estratégica para ver os eventos de um ponto de vista diferente. “As histórias contadas por eles, apesar de serem reais, não podiam ser publicadas nos jornais da época, que só divulgavam informações oficiais”, contou Frederico. Esses adolescentes presenciaram encontros oficiais, notícias de acidentes, informações que poderiam prejudicar o andamento dos Estados Unidos durante a guerra. O documentário tem o objetivo de devolver para a cidade a importância histórica e geográfica, que ela tinha antes mesmo da Segunda Guerra Mundial. Para isso foi feito um levantamento histórico, que abrange o período de 1922 a 1946. Estas datas são marcadas por eventos diferentes. 1922 foi o ano em que passou pela cidade de Natal, o avião chamado Curtiss, pilotado pelo americano Walter Hinton e o brasileiro Pinto Martins. Os pilotos estavam vindo de Nova York com destino ao Rio de Janeiro, para comemorar o centenário da independência do Brasil. De acordo com os dados coletados, o Curtiss foi o primeiro avião a passar pela cidade. A outra data, 1946 é marcada pelo fim da Segunda Guerra e a saída das forças militares americanas de Natal. Os depoimentos, textos narrados e infográficos presentes no documentário revelam não só os bastidores da guerra, o que ela tinha de mais humano, sobretudo as transformações sociais, culturais e econômicas. Praticamente todas as pessoas relatam a intensa transformação de Natal. De uma cidade pacata, de ruas de barro, trafegada por veículos de tração animal, para outra mais populosa, povoada e moderna. As fotografias e vídeos contidos no documentário foram cedidas pela Fundação Rampa. A Fundação foi inaugurada em 2000. A maior parte dos integrantes era de militares da Força A éria Brasileira. Naquela época, o objetivo da fundação era restaurar a Rampa, local de aterrissagem e decolagem dos aviões. Desde 2008, sob a diretoria de ex coronel da força aérea, Marco Antônio Sendin, a fundação quer resgatar a história aeronáutica do Estado, que estava perdida materialmente e imaterialmente. O documentário “Natal encruzilhada do mundo” depois de concluído, será distribuído gratuitamente em bibliotecas e escolas públicas de Natal e alguns países da Europa e América. Os testemunhos da aviação, durante a Segunda Guerra Mundial que quiserem participar do documentário devem telefonar para os números: 8714-2868 ou 9402-3279. Apesar de ter um dos maiores acervos sobre Segunda Guerra Mundial no RN, a Fundação Rampa não tem sede, colocando o seu acervo a disposição do público somente pela internet. Se a sede não existe, tampouco há apoio governamental. O site pode ser acessado pelo www.fundacaorampa.com.br. O trabalho desenvolvido pela Fundação é levado pelo empenho de colaboradores, entre eles Augusto Maranhão e Frederico Nicolau. Um dos locais que reclamam o acervo para exposição é o Museu da Rampa, existente até agora unicamente no papel. Vizinho ao que hoje é o Canto do Mangue e o Mercado do Peixe, o Museu da Rampa era um aeroporto utilizado entre a década de 30 e 40 por aeronaves em todo o mundo. As viagens intercontinentais tinham a Rampa como parada obrigatória. O nome vem da rampa por onde subiam os hidroaviões europeus. Eles pousavam no Potengi e subiam a Rampa. Mesmo sem sede, a fundação assumiu a missão de, além de pesquisar, transmitir esse conhecimento por meio de palestras, livros, parcerias e coleta de testemunhos orais da história. O trabalho ultrapassou as fronteiras do Rio Grande do Norte chegando a outros estados brasileiros e países do continente americano e europeu. O resultado desse empenho é uma das maiores coleções de imagens do início da aviação relacionadas a Natal, vídeos, livros e artigos. Como ação concreta, a Fundação Rampa promove um calendário anual de atividades, participando de simpósios, encontros de veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB), comemoração de datas históricas como o aniversario do pioneiro Augusto Severo e o encontro dos presidentes Franklin Delano Roosevelt e Getúlio Vargas, ocorrido na Rampa em 28 de janeiro de 1943. O principal objetivo é transmitir a importância de Natal para a história da aviação, desde os pioneiros até o fim do conflito mais brutal conflito da raça humana, a Segunda Guerra Mundial, com a criação de Parnamirim Field. O início ocorre com as primeiras rotas regulares de correio aéreo transoceânico, em 1930 com os francês ligando Natal à França e logo em seguida, em 1934, os alemães da Lufthansa partindo de Berlim para a América do Sul via Natal.
  • Tribuna do Norte

Nenhum comentário:

Postar um comentário